VITO, livro de contos ilustrados, foi lançado dia 24 de agosto de 2017 na galeria Gestual em Porto Algre

editora ESCRITOS

Vito

algumas ilustrações:

 

Li “Vito – Contos”, de Maria Tomaselli, escutando internamente a voz dela. Se a escutei, é porque sei que o que ela fala é o que ela pensa e, como escritora – é a concluir – ela escreve o que pensa. Isto reforça minha hipótese de que só é capaz de fazer literatura quem tem o que dizer. Quanto ao som de sua fala, a sua voz, não me escapo do músico que sou.  Foi como se ela me contasse a história. Quem sabe nesta escuta estejam as primeiras vozes que, na infância, me contaram histórias e que cantaram para mim?  
Nos Contos de Vito, a narrativa é permeada por familiaridade e universalidade a uma só vez. Não importa onde a trama se desenvolve: pode ser em qualquer lugar e qualquer tempo. No entanto e não obstante, aos poucos o leitor vai percebendo que as vivências de Vito em suas interações com os personagens individuais e coletivos de seu entorno também pertencem a ele mesmo, leitor. Surpreenderá qualquer leitor ser o entorno de Vito o seu próprio entorno aqui e agora. Durante a leitura, nós, leitores, vamos – por assim dizer –  compartilhando cada momento de cada Conto, na extensão em que os temas de fundo que se entrelaçam também se enlaçam ao nosso quotidiano e nos pertencem. Pensar, refletir, é preciso. Não pensar é impreciso.
A agilidade da narrativa dos Contos de Vito e sua força contextual reafirmam o sentimento que nos assola neste presente histórico da contemporaneidade de que a ficção não supera o realismo fantástico e/ou o surrealismo de nosso dia-a-dia, mas pode retratá-lo multifacetadamente na sua fragmentação e no seu todo.
A linguagem de Tomaselli vai pelo viés do  quotidiano da fala urbana  que expressa melhormente as nuances e a complexidade de nosso real quotidiano. A autora nunca se afasta da linguagem direta, simples, criativa e equilibrada. Uma linguagem sem firulas ou retóricas vãs. Quanto às retóricas, ao contrário, a autora cita, reproduz, utiliza e enfatiza certas retóricas opulentas, lugares-comuns, fora de hora e vazias – observará o leitor arguto – tão em uso por profissionais de várias áreas, políticos, profissionais liberais, trabalhadores e até mesmo pessoas desocupadas pertencentes aos mais diversos nichos sociais culturais antropológicos específicos de nossa sociedade e, quem sabe, bem conhecidos do leitor. Tomaselli opera sua linguagem como uma Arqueira-Artista (Arthemis?) que sempre acerta o alvo, pois o que lhe interessa, mesmo, é a trajetória da flecha. Afinal, ver é um dos cinco sentidos, enxergar é um dom, um ato da inteligência e da vontade.
Sem comparar, dos autores que li, trago Edgar Allan Poe como um parceiro de arqueria de Tomaselli, escritor que teve a grandeza de surpreender seu entorno social estadunidense quando, em seus contos,  expôs o que ali estava escondido tanto  no inconsciente coletivo quanto  nos moeurs e na moral subjacente da sociedade repressora e reprimida da Costa Leste. Como se isto não bastasse, pela imprensa  disse algo que Boston nunca lhe perdoo  quando escreveu: “... Boston is an intelectual swamp...”. À propósito, reitero  que o leitor dos Contos de Vito, de um jeito ou de outro, vai se encontrar ou se localizar como pertencente ao entorno do personagem.
Para Maria Tomaselli, conforme ela me disse, cada texto tem sua música própria. Assim, também “Vito – Contos”. Compartilho disso. Por este fulcro, faço algumas anotações.
Há um refrán  espanhol que diz que  el rio cuando suena, agua lleva...” (também há a variante “el rio quando suena, algo trae” ). Penso que não seja possível  separar  a narrativa em si, nesta obra,  da linguagem que a conduz. Criar esta simultaneidade é uma rara Arte de poucos escritores. Em vista disso, enuncio o enigma de que “o quê” e o “como” se sobrepõem. Ainda, músico que sou, em minha leitura a obra me soou internamente como se os Contos de Vito fossem movimentos de uma Suíte em vários andamentos sucessivos, com o atributo de ter como fio condutor um movimento de fluxo constante. Daí a imagem de rio, a que recorro. Quanto ao caráter do fluir, quanto ao que senti neste fluxo constante, posso recorrer à imagem de “...fliessende Bewegung” -  sentimento de um fluir corrente, sem obstáculos, incessante. Gustav Mahler, no terceiro movimento da Segunda Sinfonia, indica, na partitura, para o regente: “In ruhig fliessender Bewegung”. Eis meu sentimento –... é tão difícil dizer por palavras o que a gente sente ter escutado em uma música...
A reflexão presente na obra de Tomaselli coloca-nos frente a questões histórico-políticas, éticas e morais que emergem na narrativa de cada conto e também no fio condutor do todo dos contos. Destaco três delas pela sua importância e também por dialogarem tanto com a literatura contemporânea quanto com obras de referência, vistas pela óptica de uma visão diacrônica da história da Literatura. Sinto-as como eixos inter-remissivos, na narrativa. Ei-las:  as instituições em geral e seu funcionamento, bem como a presunção, a vaidade, a basófia e a futilidade inerentes ao funcionamento;  afetos,  amizades e outras relações interpessoais vistas em sua força, sua grandeza,  mas também expondo a volatilidade, a nulidade e a insignificância – o nada, enfim – que lhes pode acometer; a voluptuosidade contida nos encantamentos interessados ou desinteressados e nas derrocadas da desilusão e desencanto.
Quanto aos moeurs, pelo refinado sense of humor da autora e o forte sentido de humanismo deparamo-nos em cada conto com “coisas nossas” muito peculiares – e são muitas. Fique a surpresa para o leitor, que não sairá isento da leitura.
Cronista do real do aqui e agora, diferentemente do ranço das ficções históricas da moda ou da hora, Maria Tomaselli com esta obra me fez sentir novamente o frescor de leitura que encontrei pela vida em autores que ainda revisito para lhes sentir mais e melhor o que me ensinaram e me ensinam e o divertimento que me trazem. São outros parceiros de Tomaselli, além de Poe. Nomearei alguns em seguida. São parceiros dela pelas suas escolhas.   Tive nestas leituras a fortuna de mergulhar nas alegóricas crônicas de Fernão Mendes Pinto e de Padre Bernardes; nas reflexões de Pascal e Montaigne; na oxigenação cifrada  pela  ironia e pela sátira – não sem sarcasmo – de Swift e Stern; nas crônicas de súditos, da classe média e dos subúrbios, de Machado de Assis, pela fina fieira de suas lições de estilo; na inovadora e sincera linguagem de Lima Barreto; no olho do furacão de coragem do Padre  Vieira (sem esquecer este gigante) em seus Sermões –   aqui vale lembrar o famoso “Sermão da Sexagésima”, tanto pelo libelo pela fé contra a hipocrisia,  quanto pelo poético que recupera a lendária “Predicação de Santo Antônio aos Peixes”. (Aqui, retorno como o músico leitor de Vito, é frequente revisitar Vieira e a escuta do Lied no qual Gustav Mahler faz cantar o poema recolhido por von Arnim e Brentano Des Antonius von Padua Fischpredigt – da série “Des Knaben Wunderhorn” ).
Este sentimento memorável de frescor e prazer na leitura que Tomaselli me trouxe advém da genialidade e da originalidade desta sua obra literária “Vito – Contos” que constitui um depoimento vivo, de grande força poética, da sua visão de sociedade, uma visão crítica, humanista, profundamente comprometida com o presente histórico complexo em que vivemos.
Flávio Oliveira. (26.05.17)