KAI

 

Apresentando KAI
Apresentar um texto como KAI é um desafio que mobiliza razões e emoções desenvolvidas ao longo do trabalho de revisão do mesmo, o qual se estendeu pelas 3as e 5as feiras à tarde, por mais de um ano, na residência do simpático casal de filósofos, Carlos Cirne Lima e Maria Tomaselli Cirne Lima.
Foi muito divertido conversarmos, divergirmos e chegarmos a conclusões sobre a ortografia, o conteúdo e a vida muito encantadora dessa escritora. A começar pela originalidade dos títulos, a variedade caleidoscópica dos temas e sua distribuição ao longo da narrativa, leremos a história de Maria, a austríaca que compreende, produz e convive em uma cultura um tanto diversa daquela onde viveu seus primeiros 20 anos Este período inicial de sua vida, nos traz, com clareza e profundidade, a riqueza das relações familiares, muito bem sintetizadas em frases como “Minhas duas avós jamais poderiam imaginar que uma de suas netas iria viver num país tropical com vegetação exuberante e comida farta.” Aqui estão implícitas as dificuldades que os europeus enfrentaram, atravessando duas guerras e sobrevivendo a elas sempre que possível. Com recursos provindos sabe-se lá de onde. Talvez da realidade biológica de que o homem é o ser que mais se adapta ao meio, e, portanto ás circunstâncias nele envolvidas.
A arte está presente nessa família desde o avô paterno, Friedrich, que esculpia em mármore, e morreu aos 40 anos, em 1921. Sua esposa sobreviveu a esta e a outra grande perda: a de duas filhas, pela tuberculose. Mas as lembranças desses tempos difíceis sempre são intercaladas por acontecimentos descontraídos e muito interessantes. Entre eles, a história do casamento de Ferdinand, o filho de Friedrich, em 1938, numa aldeia ao pé da majestosa montanha de Bettelwurf, numa bucólica igrejinha de convento. A noiva, Adelheid, trajando azul-marinho, como era tradição, então no Tirol, atrasou-se porque a carruagem que a transportava quebrou no caminho. A locomoção por carro, na época, era dificultada pelo uso da gasolina apenas permitido para atividades da guerra. E o protocolo não foi seguido, mas no jantar oferecido pelos noivos a alegria e o vinho predominaram.
 Apresentada Adelheid, mãe de Maria, é importante conhecermos melhor essa fascinante personagem, artista plástica e também escritora de sua biografia. A relação afetiva dessas duas personagens, mãe e filha, transparece ao longo de “KAI”. Elas eram grandes amigas, e Maria desejou muito festejar os 100 anos da mãe, que se aproximavam quando estávamos trabalhando na revisão. Em março de 2014 ela viaja à Áustria, para a festa dos 99 anos, e prepara a exposição dos trabalhos de Adelheid, que acaba acontecendo, em forma póstuma, em setembro do mesmo ano. Com toda a solenidade e divulgação que ambas as expositoras merecem.
Quando Maria conheceu e namorou seu futuro marido, Carlos, sua mãe vivia, aos 48 anos de idade, a gravidez do 5º filho, Markus. À mais velha, Maria, seguiram-se Klaus, Roswitha e Brigitte.
Não só a guerra, as doenças também vitimaram os Tomaselli: Klaus faleceu de câncer, e é emocionante a narrativa de como seu filho pequeno, Christian, através dos tios Maria e Markus, conseguiu se associar a momentos tão difíceis.
Enquanto isso...
“No ano de 1944, lá longe da morte, do frio, da fome e da destruição, o Carlos Roberto tinha 13 anos, um lindo cavalo tordilho de nome Centenário, e passava as férias em um longo verão na fazenda do avô.”
Introduzido o personagem que até hoje é casado com Maria, convém explicar que ele descende dos Cirne Lima que fizeram nossa cidade avançar na cultura e na benemerência. Carlos, como ele é nomeado no livro, é o mais velho desta numerosa família, que muito se orgulhou de encaminhá-lo ao seminário, para tornar-se jesuíta. Seus estudos acadêmicos iniciaram-se na Alemanha do pós-guerra, onde se instala o que Maria denomina de “Tilt na cabeça do Carlos”. Mas ela também afirma com todas as letras que ele a sequestrou das montanhas do Tirol. Como não consegui interpretar esta história tal qual a autora a descreve, sugiro aos leitores que leiam com muita atenção o que considero fundamental nessa relação de amor eterno: o capítulo “Et terra tremuit I” Ah, benditas e bem aproveitadas aulas de latim do meu distante ginásio, muito as utilizei ao longo da leitura do texto, para entender o sentido literal e o subentendido de frases embaladas em filosofia e ironia, ambas temperadas pelo personalíssimo estilo de Maria. E lá se iam nossas longas tardes de teorias e práticas sobre formas de compreender e de escrever sentimentos e experiências de um currículo com tantas cores e sons (ai de mim se eu tivesse ousado falar em policromia e polifonia; a autora talvez diminuísse minhas porções de chocolate, que tanta energia me forneceram). É que esta fantástica artista fala e escreve em um português quase perfeito, e neste “quase” pego uma bela carona. Algumas vezes íamos ao Google confirmar uma dúvida, ela estava certa, e um inimaginável sorriso de deboche acompanhava um escore nem sempre a meu favor. Mas pior do que isso era quando eu queria explicar algo tão inocente quanto o uso da próclise, e ela dizia “não precisa” Com um olhar tão humilde quanto fixo no teclado, no qual ela mesma digitava sua obra de arte. Arte não passa por revisão, e eu sempre ousei aceitar o português artístico de Maria. As correções muito se dirigiam à expressão, em português, de ideias brilhantemente concebidas em alemão.
Espero que os leitores convivam, como eu, com surpresas e saltos no tempo e no espaço, sempre com a inevitável presença do “Artista”.
Enfim, o princípio básico do “Kai”, traduzido do grego, é mantido: E, UND.
A narradora literalmente agrega, une dois territórios onde Maria transita com suprema inspiração: a Áustria onde nasceu e o Brasil onde vive sua arte e seu desejo de expandi-la aqui e lá. Sempre compreendendo nosso país em sua cultura e formas de viver, agregando experiências sem a preocupação de criticar ou comparar. Ela aplicou, na íntegra, a ideia de que “Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”: suas duas pátrias são incomparáveis, mas possíveis.
Como mais um traço de união entre mãe e filha, cito o título de uma publicação da mãe, a queridíssima Adelheid Tomaselli: “MEIN BRASILIEN” (“MEU BRASIL”), no qual ela também narra aventuras que acontecem quase literalmente “do Oiapoque ao Chuí”. Mas esta é outra fascinante história...
                                                                       Ana Maria Dischinger Marshall