METADE SUL: O QUE FAZER?
SOBRE O RIO GRANDE DO SUL


O Estado do Rio Grande do Sul, com uma superfície de cerca de 282.062 km2, correspondente a pouco mais de três por cento do território brasileiro, equivale a uma área ligeiramente inferior à da Itália e pouco superior à da Inglaterra. As disputas de território ocorridas entre Portugal e Espanha, desde os primórdios de nossa história, levaram os limites territoriais do Estado a grandes alterações. Sua atual fronteira somente ficou estabelecida no início do século XX.
As características físicas gerais apresentadas pelo território gaúcho contemplam uma condição de ocupação bastante privilegiada, já que praticamente não existem áreas consideradas inaptas para o seu aproveitamento sócio-econômico. Esta rápida caracterização espacial pressupõe a possibilidade real da realização de um projeto de desenvolvimento de base sustentável, no sentido de permitir a realização de um planejamento que procure adequar as condições ambientais à sua exploração racional. Tais colocações se fazem necessárias para que se possa fazer uma breve análise das condições enfrentadas pela “Metade Sul” do Estado e sua inserção no contexto da sociedade atual.
“METADES” SUL E NORTE
Há 100 anos, a região sul do Rio Grande do Sul, conhecida como “Metade Sul” - que corresponde a cerca da metade da área do Estado -, concentrava o maior número de municípios e contava com aproximadamente 90% de seus habitantes. Hoje, esta região apresenta uma população próxima dos dois milhões e quinhentos mil habitantes o que corresponde a cerca de 25% dos gaúchos residentes no Estado, em menos de 22% dos seus municípios.
Pode-se perguntar: O que teria ocorrido? Para onde se deslocou esta população?
Em termos gerais, as respostas trazem consigo um modo de ocupação territorial diferenciado desta região relativamente ao restante do Estado. As porções Norte e Nordeste, que complementariam o restante do quadro espacial do Rio Grande do Sul, abarcam, hoje em dia, os demais cerca de sete milhões e meio de gaúchos que vivem no Estado. Tais regiões vivenciaram um processo de ocupação territorial completamente diferente daquele experimentado pela “Metade Sul”. Determinados espaços da “Metade Norte”, sofreram um processo de colonização que previa a divisão territorial em pequenos lotes. Além de diversas características associadas à cultura dos colonos, às políticas de ocupação dos governos da época, aos aspectos físicos encontrados e tantas outras, sem entrar em maiores detalhes, pode-se dizer que tal forma de ocupação territorial originou um cenário de pequenas propriedades, o qual permitiu a existência de pequenas comunidades, que transformaram-se em vilas, cidades e assim por diante. A pequena propriedade levou a uma diversificação em termos agropecuários. O modo de produção capitalista trouxe a possibilidade de comercialização do excedente da produção. Enquanto isso, novas necessidades acabavam sendo geradas: aquisição de ferramentas, transporte de mercadorias, vestuário etc. Paralelamente, parte da produção começou a ser transformada, o que trouxe um processo de industrialização para algumas regiões. Esta rápida e superficial apreciação traz consigo a noção de que o processo experimentado pela “Metade Norte” foi gerado pela sua própria forma de ocupação.
E A METADE SUL?
Os municípios com maior área territorial encontram-se nesta parte do Estado. A ocupação territorial e econômica da Metade Sul, ainda se dá, principalmente, em função de um setor primário vinculado às médias e grandes propriedades rurais. Desde as primeiras charqueadas, até os dias de hoje, com raras exceções, não ocorreram alterações substanciais na maneira de administrar os recursos da região. Esta situação traz consigo uma ligação direta com práticas políticas pouco eficazes em relação às possibilidades de desenvolvimento regional e tais características traduzem, talvez, os principais fatores da estagnação social, política e econômica desta porção do território sul-riograndense. Foi-se o tempo do poder decisório dos pecuaristas na esfera governamental. A espera por um novo caudilho está cada vez perdendo mais adeptos. Busca-se soluções diversas mais ou menos radicais e o surgimento de movimentos separatistas são um exemplo da indignação de certos setores que já não mais suportam o estágio de atraso encontrado em boa parte do sul do Estado. O que se precisa, mesmo, entretanto, é uma aglutinação de esforços no sentido de se planejar ações específicas para a região. Este planejamento exige compreensão e esforços direcionados por parte das autoridades governamentais em todos os âmbitos (municipal, estadual e federal). Iniciativas isoladas acabam por perder-se no contexto regional. As ações devem seguir um planejamento estratégico vinculado ao potencial da região como um todo. E esse é o papel do Governo do Estado: planejar e construir soluções. Para isso, a assessoria de profissionais capacitados, como Economistas, Engenheiros e Geógrafos, entre outros, se faz urgente e necessária. E por quê não é feito nada? É uma ótima pergunta!

Paulo Roberto Fitz
Geógrafo, Mestre em Sensoriamento Remoto, Cursando Doutorado em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental. Professor e pesquisador do UNILASALLE.