Sobre os cerritos
Pe. Pedro Ignácio Schmitz

O cerrito, no Rio Grande do Sul e no Uruguay representa a dialética da água. Quando a água sobe, cobrindo os campos, a primeira impressão pode ser de que ela impede a vida dos homens e dos animais. O contrário acontece: a enchente, que estaciona, multiplica a vida: ela traz os peixes, os moluscos, os crustáceos, a capivara, o cervo do pantanal, as aves aquáticas migratórias e residentes, o junco, a mata ribeirinha, a diversidade necessária para indígena viver enquanto a água está ali, parada, cheia de vida.
Para se apossar desta riqueza, o homem nativo constrói o cerrito, produto de sua percepção ecológica, e, morando em cima, desfruta a abundância sem precisar se locomover.
Quanto é mais rico o espaço, mais o aterro cresce e se multiplica, mais a população se adensa, criando um território sobre o qual ela exerce poder. Ali não está somente o seu abastecimento, ali ela enterra seus mortos que a prendem ao lugar. Este é um espaço que desde milênios antes de nossa era foi seu, permitindo que cada nova geração pudesse olhar para o futuro sem temor da maligna fome.
(Para o fazendeiro gaúcho a enchente, cobrindo os ricos campos baixos, livres de carrapatos, é a adversidade. Mas ali está o cerrito, onde o gado se refugia com segurança como se fora construído especialmente para isso. E não conheço abóbora ou moranga mais gostosa que a nascida no solo fértil de um aterro.)
A enchente é temporária, anual, e com ela também a abundância dos recursos. Então, quando as águas estagnadas recuam, o homem vai em busca das coxilhas, onde estão as nascentes puras, brotando dos morros. Ali os recursos são mais dispersos e a população é obrigada a se espraiar, mas o ar é puro e não tem mosquitos. Mas, assim mesmo, fica sonhando com as águas turvas, cheias de vida e de mosquitos, ao redor dos monumentos construídos por eles mesmos e por seus ancestrais.

 

 

do livro Arqueologia Pré-Histórica do Rio Grande do Sul
Arno Kern (org) pg244/45 - Mercado Aberto

 

nos cerritos foram achados cerâmicas, lascas de pedras,
rompe-cabeças, zoólitos

 

este tubarão encontra-se no
Laboratóriode Ensino e Pesquisa em Antropologia e Arqueologia (LEPAARQ)
da Universidade de Pelotas, RS

as seguintes fotos, mostrando o tubarão em várias posições,
foram tiradas por Winde Mertens (Bélgica) :


 

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