O CONDICIONAMENTO DA ÁGUA PARA O PROJETO JAGUARÃO
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A água é indispensável à vida. A necessidade de água desde sempre atraiu as pessoas para a proximidade dos rios.
Desde há milhares de anos, o homem procura dominar a água e defender-se contra as faltas e os excessos (ou seja, as inundações) que tantos problemas lhe causam. Por exemplo, para se proteger das inundações, o homem ergue diques; para transportar a água constrói canais, aquedutos e condutos; para trazer a água de zonas mais baixas inventa mecanismos cheios de imaginação. Primeiro, é quase certo que utilizou um recipiente tipo balde, atado a uma corda que depois prendeu por um gancho. Mais tarde trocou este gancho por uma roldana.
E já nos potes e jarros foi expressando sua arte ao representar figuras, quer na forma quer na pintura destes utensílios.
O projeto Jaguarão ao incorporar a água na sua temática nada mais faz que reincorporar esta proposição ancestral.
É de fundamental importância uma ampla consciência quanto à preservação ambiental e principalmente quanto aos cuidados e as medidas necessários para que se possa compensar os problemas provocados pela atividade humana responsável por pesados passivos ambientais. Estes tem comprometido significativamente a qualidade das águas naturais e acarretado os conseqüentes riscos à própria saúde humana.
Embora o uso contínuo, o reconhecimento da necessidade e o culto pela água tenham sido permanentes em toda a história da humanidade, foram recentes os conhecimentos científicos a respeito da mesma e as comprovações dos cuidados que dever-se-ia tomar em relação à sua qualidade para torná-la segura quanto à prevenção de enfermidades.
Água pura, no sentido etimológico, não existe. Consequentemente, para evitar os significados errôneos de pureza, convém melhor a expressão de qualidade segura e potável. A palavra segura implica no livre consumo, sem ameaça à saúde do consumidor e o adjetivo potável, em água satisfatória para os fins de ingestão, nas suas características físicas, químicas e biológicas. Daí, a expressão qualidade sanitária segura tem sentido mais restrito: isenção de poluição bacteriana significativa, sem referência às características físicas, químicas e biológicas que impliquem na atratividade da bebida.
Os primitivos requisitos, nos abastecimentos de água potável eram, simplesmente, a atratividade e a temperatura amena, embora persistisse durante séculos a opinião de que as águas minerais possuem efeitos fisiológicos benéficos, no banho ou na ingestão. O desejo de uma água limpa conduziu à filtração do abastecimento de Londres, já em 1829; apenas se desejava clarificar a água e não havia qualquer noção da presença de microorganismos patogênicos.
Efetivamente, conforme a humanidade foi-se agrupando em sítios urbanos e a água foi ficando mais escassa e insegura, pois os próprios excrementos humanos eram carreados por ela e a poluíam, conforme foram-se desenvolvendo processos industriais que deixavam resíduos e inclusive, conforme foram-se criando produtos para melhorar a agricultura, como pesticidas e defensivos, estes terminavam por serem lavados do solo ou de onde estivessem, indo aos corpos de água, gerando grandes comprometimentos da flora e fauna, terminando por ser concentrados através da cadeia alimentar e finalmente consumidos, afetando a saúde das populações.
Muitos problemas de origem natural ou assim como da ação do homem foram identificados e detectados, obrigando a busca e adoção de tecnologias capazes de dar solução ao problema da qualidade da água.
Paralelamente os desenvolvimentos tecnológicos ocorridos em outros segmentos da atividade humana produziram novos produtos até então inexistentes na natureza, obrigando novamente a pesquisa de novas tecnologias de tratamento da água capazes de corrigir as características físicas, químicas e microbiológicas da água de forma a torná-la segura, atendendo os padrões de potabilidade.
A adequada proposta do Projeto Jaguarão de valorizar a água e inseri-la centralmente no Rompe Cabezas, vem acompanhada de um desafio de que esta naquele ponto seja a mais adequada ao consumo humano, posto que este seguramente virá a ocorrer.
Trata-se, pois de compatibilizar uma postura técnica, que será, por que não queira aceitar o rótulo, convencional e a proposta do Grupo Jaguarão, artistas inconvencionais por natureza e que formulam, no caso um Projeto menos convencional ainda.
Sendo o rio Jaguarão um curso de água em relação ao qual as agressões por resíduos industriais e de lavouras são inexistentes ou, no máximo, moderadas, o processo de condicionamento a adotar está ensejando uma salutar, troca de informações entre artista, técnicos e a sociedade, o que está conduzindo a uma compatibilização de objetivos, tornando mais próxima e, tanto quanto possível, menos afetada pelas restrições técnicas e tecnológicas, a concepção artística do grupo.
Supõe-se, nesta etapa, que se incorporará ao Projeto Jaguarão para que a água que fluirá permanentemente no Rompe Cabezas seja garantida quanto á potabilidade, um processo clássico de floculação, decantação, filtração e desinfecção que viabilize a garantia quanto à manutenção daqueles padrões.
Fundamental é, entretanto, a iniciativa, quando o mundo se depara com mais uma guerra absurda e indesejada, nada mais confortador que, naquelas paragens que outrora já foram palco de combates e enfrentamentos, a ponto de ter sido conferido à Jaguarão o título de Cidade Heróica, poder-se idealizar e realizar uma instalação que é um chamamento à natureza, à pureza e consequentemente á paz.

Percy Soaes, 26 Mar. 03