Exposição Maria Tomaselli

novembro 2003

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Flutuantes



No Rio Negro paramos ao lado de um flutuante. Era um armazém de abastecimento, mas era chamado de flutuante, porque estava em cima de uma balsa.Tênue fio este que o prendia, temporariamente, ao chão, a este local: a âncora.

Como tênues são as amarras, hoje em dia, que prendem as pessoas à casa, este abrigo que antigamente significava segurança, permanência, duração. Tanto que o filho perdido podia retornar à casa paterna. Hoje seria mais difícil voltar para casa dos pais, feito Ulisses para Ítaca, e ainda achá-los morando no mesmo local, com um Argos esperando no portão.

As casas viraram mercadoria descartável. Os pontos de referência da paisagem urbana parecem uma miragem, porque em poucos anos as ruas ficam irreconhecíveis, casas cedem lugar a edifícios, edifícios são demolidos para virarem prédios mais altos ainda, casas somem na escuridão da falta de sol e luz, esmagadas pelas torres que surgem, feito cogumelos, a seu lado. Desamparo é a sensação, porque nada pode impedir que se perca a vista, a paisagem, o calor do sol, o frescor de um vento. A lei não é garantia, planos diretores são alterados a bel prazer da necessidade de fazer caixa dos cofres públicos. Compram-se quotas, constroem-se mais dez andares. Arquitetos se levantam contra esta selvageria, como foi o programa SOS CIDADES, de Flavio Kiefer.
Às vezes penso: e se todos os cidadãos, cujas casas fossem ameaçadas por prédios predadores de seu entorno urbano, entrassem na justiça, reclamando seu direito à um pedaço de céu, luz e vento, não haveria uma possibilidade de eles ganharem esta causa?

Casas eram sólidas e ainda são assim consideradas no Velho Mundo. Cidades têm um centro histórico preservado, ou reconstruído, um rosto, uma identidade. As pessoas se localizam.

No novo mundo, as pessoas flutuam, estão a caminho, Alice does not live here anymore, é o título de um filme, mostrando uma alma inquieta, constantemente mudando de lugar. Também as casas parecem flutuar. Mal encostam no chão, são sem raízes, frágeis, sem entorno, em constante mutação e movimento. O res-de-chaussée, o parterre, que ainda se lê nos elevadores mais antigos, significa o ponto onde o prédio está enraizado na terra, no chão. Nos elevadores atuais há mais subsolos do que solos, e nunca se está num nível, sempre se sobe ou desce.

Puxa vida, eu também vou para o décimo nono andar. E sabem por que? Para ninguém me tirar o sol, a luz, o vento e o céu.

Sob este enfoque pintei os 5 quadros negros com o detalhe-luz em vermelho:quem sabe, os homens, um dia, acham de novo a medida áurea!

Meu público, eu o pintei também, porque poderia não tê-lo, em se tratando de quadros pretos. Prudente morreu de velho!

 

Os textos que acompanham os quadros são de
Odorico Roman

 

:

O preto e o vermelho...
Tão profundamente opostos,
como o sol e a escuridão que o nega.
Tão intimamente próximos,
como o carbono e a chama que o consome.
O preto e o vermelho esculpem rostos,
ilhas humanas, labirintos interiores.
Desnudam almas, pedaços de vida expostos, indefesos,
ansiando por toques de luz e de calor.
Fragmentos de pessoas silenciosamente reais.

 

O material eleva-se para além do alcançável...
Aprisiona quem ousa acompanhá-lo.
Descarta quem não tem a audácia de atrever-se.
Um espectro apropria-se da cena.
Vigilante, contém a esperança nos limites.
Retrato da armadilha urbana. Ou será humana?

 

 

A vida é circular e transitória.
O mundo é contraditório e inconciliável.
As coisas todas não podem estar onde desejamos que estejam.
Não todas as coisas ao mesmo tempo.
Nada está perfeitamente posto, onde quer que se coloque.
Nossas inquietudes são reflexos em branco e preto.

 

 

Luz e sombra...
Tese e antítese...
O querer materializado em um gesto desesperado,
quase contraditório: da bruma,
a ação dilacerante traz o resplendor.
Virá?

 

 

Que pano vai resguardar
a bela do corredor
dos olhares sem pudor
do arranha-céu debruçado?
Quem esconderá os contornos
da mulher emoldurada
dos olhares indiscretos
da cidade apaixonada?
A noite? Por certo não.
A noite também espia.
Criou boca, botou olho,
intrometeu-se na tela,
pra ver e sentir o gosto
da moça nua na janela.