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texto de apresentação:

Um dia topei com uma lona de caminhão, toda rasgada, remediada, costurada.
Pensei: para ela, esses remendos são as fotos de seu álbum de viagem, e o
dono do caminhão deve saber em que lugar, a que hora, em que luz aconteceu
cada marca, cada cicatriz. Deve se lembrar da chuva de gelo, do galho da
árvore que pendia demasiadamente para dentro da pista, do buraco na estrada
cheio de água com graxa que foi jogada na lona; da tentativa de lavá-la num
posto de gasolina que fez com que manchasse mais ainda. Das paradas nos
borracheiros nesse Brasil afora para consertá-la. Até que não deu mais e ela
ia virar, ela mesma, matéria para remendar outras lonas, mais novas, nesse
ciclo que é a vida. Ah...se não fosse eu a encantar-me com ela!

Como me encanto com material de demolição, desde o tempo (1989) em que
construí a Oca-Maloca. Desta época sobrou a quase tara de transformar
madeiras velhas em caixinhas, cheias de pequenas surpresas. O grafismos e as
cores que o uso dos objetos produz não pode ser imitado pela mão do homem
(que os "experts" italianos em falsificações de objetos antigos me perdoem),
é a ação do tempo dá pátina e sabor. Deve ser porque nestes vestígios a
gente vê algo que dura mais do que a própria gente; é uma duração, mas ao
mesmo tempo um desaparecer; e desse ciclo nós podemos participar com
pequenos gestos.

Maria Tomaselli, 2011