Centro Cultural do Rio de Janeiro - Programação

Exposições

Maria Tomaselli

"TO na lona" ? artista mostra série inédita no Centro Cultural Correios Rio de Janeiro

 

 

A exposição "Maria Tomaselli" apresenta a obra recente da artista austríaca radicada em Porto Alegre e, ao mesmo tempo, traça um panorama de seu percurso. São 25 pinturas de grandes formatos, seis álbuns de gravuras, além de desenhos e um vídeo sobre a instalação Oca-Maloca, vencedora do prêmio aquisição do Museu de Arte de Brasília em 1990. Nos fins de semana serão oferecidas ao público oficinas coordenadas por arte-educadores.

A maior parte das obras apresentadas é inédita, pois o foco da exposição concentra-se na produção recente da artista realizada sobre lona. Maria Tomaselli costuma assinar seus trabalhos apenas com suas iniciais TO, e por isso deu à série o bem-humorado nome de "TO na Lona". Nela a artista trabalha com lonas de caminhão usadas aproveitando remendos e furos como ponto de partida. E, usando o conceito dos "segredos", que permeia sua obra, acrescenta às superfícies detalhes em desenho, pintura, e gravuras - impressas também sobre lona. O resultado são trabalhos de grande impacto visual, mas que só se desvendam aos poucos, num segundo olhar.

A exposição revela a intensidade da obra de Maria Tomaselli, uma artista ousada, que domina a cor como poucos, e que sabe ao mesmo tempo tocar e sensibilizar o expectador com sua delicadeza. A curadora Denise Mattar sintetiza: "Maria é uma artista criativa, profusa, densa e iconoclasta. Sem medo de errar, de ousar, gritar e ao mesmo tempo capaz de sutilezas e lirismos emocionantes.".

A mostra traça o percurso da artista, do desenho para a gravura, da pintura para a escultura e mostra também como tudo isso é integrado e produzido ao mesmo tempo por ela. Sua criatividade sempre extrapolou limites levando-a a criar as Cartas-Surpresa (telas que se desdobram), as Clarkianas (esculturas e objetos em tela) e a Oca-Maloca (1985), uma instalação a partir de uma criação coletiva, realizada numa época em que esses conceitos praticamente não existiam.

Nas décadas de 1970 a 1990 a artista participou ativamente da cena artística carioca e paulista recebendo os mais importantes prêmios em gravura, desenho e pintura. Depois disso residindo em Porto Alegre deixou de ter sua obra acompanhada de perto pela crítica, embora sua qualidade de produção e criatividade continuem as mesmas.

Apesar de suas raízes europeias, a arte da austro-brasileira amadureceu e tomou forma no Brasil. Casou-se com o intelectual gaúcho Carlos Cirne-Lima e mudou-se para Porto Alegre, onde teve como mestres Iberê Camargo e Danúbio Gonçalves. Mais tarde, durante o período em que viveu no Rio de Janeiro, estudou gravura em metal com Eduardo Sued, no MAM, e Anna Letycia, no Ingá. Em Olinda, onde também morou, aprimorou sua técnica na Oficina Guaianases. Tomaselli retornou à capital gaúcha, da qual se tornou cidadã honorária, em 1989.

Serviço
Exposição: "Maria Tomaselli" 
Abertura: 9 de abril às 19h
Visitação: 10 de abril a 18 de maio de 2014 - terça-feira a domingo, das 12h às 19h ? GRÁTIS/LIVRE 
Local: Centro Cultural Correios - Rua Visconde de Itaboraí, 20 ? Centro - Rio de Janeiro - RJ
Telefone: (21)2253-1580
Curadoria: Denise Mattar
Patrocínio: Correios
Apoio Cultural: Centro Cultural Correios

crítica de Ferreira gullar sobre a exposição:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/164205-pintar-sonhar-com-as-maos.shtml

Ferreira Gullar

Pintar, sonhar com as mãos

04/05/2014  02h00

Do Renascimento, isto é, do século 15, ao século 20, a pintura inventou e explorou um novo caminho: o espaço fictício tridimensional. Ao longo de cinco séculos, os pintores criaram, em suas telas, um universo outro, que só existia nelas.

De cenas religiosas a situações da vida cotidiana, de cerimônias nas cortes e de momentos dramáticos, todo um mundo de sentimentos, de aspiração à transcendência, do erotismo e da poesia cotidiana, a arte pictórica contribuiu para inventar e enriquecer a existência das pessoas, através de diferentes épocas.

Mas com o cubismo, no começo do século 20, os pintores desmontaram o espaço virtual e encantatório, dando início a um novo momento na história da arte. Já falei disso aqui, mas, se volto a mencioná-lo, é porque esse é um caminho para entendermos certas manifestações artísticas de hoje, como é o caso da pintura de Maria Tomaselli, cujas obras estão expostas no Centro Cultural dos Correios, aqui no Rio de Janeiro.

Não pretendo dizer, obviamente, que a pintura de Maria Tomaselli seja cubista ou uma derivação do cubismo. Nada disso, a relação que estabeleço se refere, de fato, à revolução que os cubistas deflagram na pintura, sobretudo rompendo a relação entre esta e a natureza: essa revolução resultou, efetivamente, na maior autonomia da linguagem pictórica. Tal autonomia se expressa, essencialmente, no uso do espaço da tela como "o lugar da pintura", o espaço onde tudo pode virar expressão artística.

Vou tentar ser mais claro: depois que o pintor deixou de imitar a natureza para criar a partir da tela vazia e dos elementos gráfico-pictóricos, entendeu que fazer o quadro é que importava e, para isso, tanto podia valer-se de cores e linhas, de uma figura inventada, quanto de outros elementos como papel colado, barbante, areia ou o que fosse. Realizar o quadro (a obra) não se limita a pintá-lo, mas fazê-lo. É nisso que Maria Tomaselli se aproxima dos cubistas: ela também "faz" o seu quadro; não apenas o pinta.

Mas, vejam bem, não estou sugerindo que ela partiu do cubismo para chegar aonde chegou. Não sei como isso se deu, mas não seria preciso a relação direta com a pintura de Picasso ou Braque, uma vez que aquela nova relação do pintor com a tela influiu decisivamente no rumo que a pintura tomou no século 20. A colagem, por exemplo, tornou-se uma linguagem autônoma, como no caso de Kurt Schwitters, que terminou saindo da tela para construir suas obras no espaço real.

Num primeiro momento, o cubismo levou, em certos casos, à desintegração da pintura. Maria Tomaselli surge várias décadas depois daquela implosão e, por isso mesmo, sua relação com aquele fenômeno é outra. E não só por isso mas, sobretudo, por suas qualidades de artista, por seu modo original de reinventar a pintura.

Logo após a implosão cubista, quando experiências de todo o tipo foram feitas, nas quais a exacerbação radical se sobrepunha às normas então vigentes. Nas manifestações dadaístas mais audaciosas, a pintura parecia acabar. Mas não acabou; de fato, renovou-se, assimilando novos procedimentos. Pois bem, a pintura de Maria Tomaselli é exemplo disso, e tanto mais significativo porque reutiliza e amplia algumas das inovações daquela época.

No meu entender, este é um fato significativo na fase atual da pintura, porque, ao mesmo tempo que reafirma as qualidades essenciais da linguagem pictórica, a enriquece com a inclusão de recortes de lona, costurados na tela ou com a introdução de gravuras impressas na lona e também acrescentadas à composição.

Esse procedimento é uma herança cubista mas, agora, usada não como rebeldia e, sim, como recriação poética do espaço pictórico, onde a cor volta a ser a voz essencial da pintura. Aliás, neste particular, devo afirmar que a cor —o espaço cromático— é o elemento básico de suas telas. Ou seja, neste particular, ela se coloca no polo oposto ao cubismo, que submeteu a cor à forma.

Na pintura de Tomaselli, é a cor que reina e dá sentido novo ao espaço subvertido pelas intervenções inesperadas dos elementos colados, que soam como vozes e sussurros. 

 

http://vejario.abril.com.br/arte-e-cultura/exposicoes/maria-tomaselli-782308.shtml

Maria Tomaselli

Artista austríaca apresenta obras no Centro Cultural Correios

por Rafael Teixeira | 

AVALIAÇÃO ✪✪✪ 

Egon Kroeff/divulgação

 

Espelho (2013): velha lona de caminhão é suporte e parte da obra

Radicada no Brasil desde 1969 e atualmente residindo em Porto Alegre (após temporadas em São Paulo, Rio e Olinda), a artista austríaca recorreu a variadas técnicas desde o início da carreira. Estudou pintura com Iberê Camargo (1914-1994), escultura com Xico Stockinger (1919-2009) e gravura com Eduardo Sued e Anna Letycia. Tal versatilidade se apresenta de forma eloquente em TO na Lona, sua individual no Centro Cultural Correios. O nome da mostra é um trocadilho que junta TO, como Maria assina os seus trabalhos, e o suporte utilizado em doze das obras apresentadas: lonas de caminhão usadas para cobrir carrocerias. Produzidas desde 2006, as criações são, na maioria, pintadas apenas com tinta a óleo, mas algumas ganham intervenções reveladoras do domínio de recursos da artista — gravuras adornam Espelho (2013) e cabeças de ferro chamam atenção dependuradas sobre Janômetro 1 (2011). Efeitos do tempo sobre a lona são exaltados. Furos ganham costuras visíveis, colagens e impressões, enquanto remendos são emoldurados por cores destacadas. No acervo exposto, aliás, a riqueza cromática sobressai, conferindo insuspeita delicadeza a um material a princípio abrutalhado. Encanto parecido provocam os dezessete óleos e acrílicas sobre tela exibidos. Um objeto de madeira, uma série de desenhos em preto e branco e álbuns de gravuras completam a visita.


Centro Cultural Correios. Rua Visconde de Itaboraí, 20, Centro, ☎ 2253-1580.  Terça a domingo, 12h às 19h. Grátis. Até domingo (18).