A Quarta Casa


O tema "casa" vem sendo trabalhado por Maria Tomaselli desde o final da década de 1980, quando ela se destacou com as instalações "Oca", elaborando uma metáfora em relação à maloca, moradia típica dos morros e das favelas. Em 1997, a artista apresentou, no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, uma instalação onde o sujeito era uma casa em bronze patinado. Era uma casa de acentuada verticalidade. Dentro, através da abertura da porta, viam-se duas cadeiras douradas frente a frente, sugerindo uma convivência vital. A casa elevada, como um santuário, estava só no espaço: ela vinha rodeada por um círculo de terra e, assim instalada, articulava-se com um conjunto de aquarelas, num diálogo de imagens densas de significado.

A instalacão de Maria Tomaselli, na Bienal do Mercosul, retoma a casa como espaço poético. Sempre, a casa como um símbolo, um lugar onde se registram os tempos de uma vida, espaço de intimidade, onde se projetam devaneios. É uma instalação in situ. A artista se apropria de uma pequena e rústica casinha de madeira, uma casinha de vigilante, elevada por pedestais, localizada junto ao rio, próximo ao galpão do cais do porto que a Bienal incorporou como espaço de exposição.

Maria Tomaselli cobre as paredes desta pequena casa com objetos/pinturas, de onde se abrem pequenas caixinhas de segredo. Apenas um visitante, por vez, pode ingressar neste espaço misterioso, criando-se, assim, uma vivência individualizada com o universo simbólico que o ambiente projeta.

Ao redor da casa de madeira, estão outras três casas esculpidas em granito, erguidas também em pedestais, sua verticalidade sempre sugerindo elevação e transcendência. Complementa-se o cenário onírico. As casas de Maria Tomaselli são sempre abrigos protegidos, seguros, onde se guardam segredos, onde memória e imaginação não se dissociam: uma e outra trabalham para o aprofundamento mútuo.

Lisbeth Rebollo Gonçalves
Junho de 1999.