Uma cabeça à procura do corpo.

O Instituto Humanitas inaugura espaço para refletir sobre a arte contemporânea.

HUMANITAS ARTE. A arte é um momento singular na história capaz de revelar a relação humana com a sensibilidade ou recriá-la. Diante da pressa comum em nossos dias que impede a atenção do olhar e a experiência estética que nos abre para o significado das coisas, o projeto HUMANITAS ARTE oferece à comunidade acadêmica e regional um momento de contemplação e reflexão sobre as artes plásticas e visuais: que as artes possam valer como antenas do processo social e histórico onde se situa o humano e alçá-lo para o significado amplo da vida como um todo.


Maria Tomaselli é a primeira convidada e expõe peça inédita.

A artista Maria Tomaselli conversa com o público no dia 28 .

A Galeria Cultural da Biblioteca da Unisinos receberá uma cabeça pensante a partir de quarta (21/5), às 17h. "Uma cabeça decepada", segundo definição da professora Márcia Tiburi. Ela não estará lendo ou em pânico, arrumando os cabelos, muito menos matando o tempo debaixo da luz que passa pela clarabóia de vidro do saguão. É uma escultura para fazer pensar a emoção, obra inédita da artista Maria Tomaselli. Tem jeito de vaso na janela, espinhoso, rude como terra desmanchada de chuva, de uma aspereza que não repele, mas que convida ao toque. "Ela não oferece título, porque o anonimato traz todos os nomes e libera a imaginação, sem correr riscos reducionistas", diz Tomaselli, austríaca de nascimento e radicada no Rio Grande do Sul, um dos talentos fundamentais da arte contemporânea brasileira. A exposição reflexiva representa a estréia do projeto Humanitas Arte, que abre espaço na universidade, uma vez por mês, para um artista de destaque.
A escolha por um único objeto de cada artista, ao invés de exibir um acervo inteiro, busca intensificar o olhar, concentrar, tornar mais densa a meditação, interrompendo o fluxo usual da biblioteca com provocações de pensamento. Toda escultura simbolizaria algo como uma antena estética para acertar a freqüência da sensibilidade.
Não adianta perguntar a Tomaselli quanto tempo ela levou para esculpir o bronze, agora repousado em definitivo na base de granito. "Os anos voam em função da pátina, processo de oxidação que passa a escultura para adquirir a nobreza do verde antes de aparecer em vida pública", explica. Aliás, toda arte amadurece nesse lento processo, de paciente elaboração solitária. "As coisas se terminam sozinhas", arremata.
Colaboradora do jornal Zero Hora e aluna de Iberê Camargo e Xico Stockinger, Tomaselli estará conversando com o público no dia 28/5, às 19h30. A mostra permanece até 15/6, das 8h às 22h.

Fabrício Carpinejar

 

A arte de Maria Tomaselli: o eterno no instante

Mais do que técnica, mais do que fato, que expressão, mais do que linguagem, sem deixar de ser tudo isso, a obra de arte é experiência. Pode-se dizer que na vida experimentamos tudo, que o mundo, a existência, nosso cotidiano é algo de que fazemos a experiência. Walter Benjamin dizia que a experiência verdadeira é aquela em que fazemos uma viagem de nós mesmos até as coisas. Depois é preciso contar aos outros, narrar o sentido captado para outros atingindo o momento impessoal e universal do que pode ser expresso. Para contar precisamos usar uma linguagem, ou criarmos nossa própria linguagem: então temos a arte e, por isso, cada um que olhe e descreva seu olhar na forma de uma obra, um objeto expressivo e significativo, pode ser artista.

A “Cabeça” de Maria Tomaselli é “a captação faustiana do momento eterno”, diz a artista. Fausto, completa ela, fez o pacto com o diabo e disse que venderia sua alma no momento em que pudesse dizer isso, em que pudesse captar a eternidade no instante. O tema do “repouso”, da “não ação”, o “contrário do mudo tv”, o “silêncio”, a “eternidade”, são as palavras que ela usa para determinar as sensações emitidas por suas imagens.

Um cabeça decaptada

Uma cabeça longe de seu corpo. Ela dispensa o corpo para afirmar a plenitude da contemplação, assim como dispensa o movimento para apoiar a plenitude do instante. A presença da ausência do corpo define a obra de arte como invocação do corpo em promessa. Toda obra é essa ausência que ilumina do olhar sem brilho para a imagem do mundo que a confirma. O olho assimétrico, o pescoço giacomettiano, esguio, a órbita arrancando-se de seu lugar para um longe guardado no silêncio metálico.
Há uma história da arte como história de corpos longe de suas cabeças (toda a temática das decaptações), mas a cabeça, na simetria/assimétrica do bronze patinado em verde, espera a ação do tempo para confirmar a cabeça sem corpo. Eterno é o olhar. O olhar inventa o eterno. O tempo será a tinta que virá a dar-lhe outras tonalidades. Outras tintas feitas de olhares darão matizes vários a essa cabeça feita para lembrar todas as cabeças: o tempo dado pelo ambiente da UNISINOS, sob os olhares e a chuva, o frio do tempo será a face avessa ao calor do pensamento. Qual verdade virá para lapidar a cabeça que vai morar na beira do lago, guardando as águas sob o silêncio eterno do metal. A clarabóia vítrea que a recebe no prédio da biblioteca já impõe uma nova vida ao espaço.
Aqui a obra parece morrer, aqui a obra começa a viver. No olhar alheio, no mistério visto. Quem vemos? O que nos olha desde essa distância de bronze? Mais do que uma cabeça como símbolo, é a alegoria da cabeça para nos fazer pensar que é preciso pensar. A obra de arte é um meio de reflexão, instante que interrompe a passagem, que me faz perguntar, o que essa cabeça faz onde está. O que sou onde estou? O que é esse mundo, esse espaço que ela contempla?

Marcia Tiburi